Diálogo entre meu espelho e eu


-Ah! Pare já com isso! Acorda minha filha!
-Mas...
-Mas o quê?
-Pode ser, não pode?
-Poder, pode. Mas não sonhe.
-Não sonhar? Quão cruel...
-Está bem. Pode sonhar. Mas pouco.
-Ei, o sonho é meu! E ele terá o tamanho que eu quiser, "tá bem, meu bem"?
-Ok! Mas depois, não diga que eu não avisei...
-Avisou?
-Da queda. Quanto maior o sonho...
-O sonho é meu, a queda é minha também...
-O que eu quero dizer é que espere um pouco mais, antes de pensar algo a respeito. Tenha algo mais de concreto. Que seja direcionado de fato a você.
-Como assim?
-Linguagem poética. O que se escreve pode ser ou não. Sempre podemos dar mais de um sentido ao que está escrito, quando se trata desse tipo de texto.
-É por isso que não gosto de você.
-Por que?
-É frio demais. Áspero!
-Claro! Queria o quê? Sou um espelho!
-Então, olhe bem dentro dos meus olhos.
-Já olhei!
-E?
-Não gostei do que vi.
-Por que?
-Perdi você. O seu olhar não é mais seu. E sendo assim, não me vejo mais nele.
-Ciúmes?
-Não. Tristeza.
-Por que me perdeu?
-Porque não sei...
-Não sabe o quê?
-Eu reflito imagens, apenas isso. Só tenho vida quando a vida passa por mim.
-Mas essa é a sua função. Não é?
-É. Mas quando alguém como você, para em minha frente e se vê de verdade, presta a verdadeira atenção em mim. E dai, posso olhar dentro dos olhos e fazer uma viagem por todos os sentimentos. Assim fico conhecendo o amor, o ódio, a inveja, a cumplicidade...
-E isso é ruim?
-É maravilhoso. Pena que é raro um momento assim.
-Bem, eu sou rara! Gosto de OTM.
-Gosto de você. É um tanto quanto divertida e nem se dá conta disso...
-De mim? Mas é tão cruel comigo... Sempre me mostra o que nem sempre eu quero ver.
-Não é crueldade.
-Não?
-É zelo.
-Hã?
-De tudo que já refleti, o que não gostei de ver em mim, foram as suas lágrimas de tristeza e decepção. Foi o que mais me doeu.

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