Velhos tempos
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♫ E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.♫
(Renato Russo)
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- O que houve?
- Sabe do que mais sinto falta? Daquele tempo em que, menina, fazia o que estou fazendo agora. Ficava lá na minha varanda com frio à espera do nascer do sol e enquanto ele surgia por trás daquelas árvores eu ficava observando e desejando o abraço de um certo alguém. Eu costumo dizer que não tenho passado, visto que não me lembro da nada (ou quase nada) do que fiz até aqui. Porém, esse período da minha vida, eu guardo com muito carinho. Parece até, que eu existi somente nele, ou que passei o resto da vida anestesiada, sabe? Eu simplesmente fui assim, passando pelos dias, sem prestar atenção no que acontecia, porque na verdade nada me interessou tanto, como aqueles dias que se passaram. Eu ainda era muito menina e nessa fase conheci o valor da amizade, a boa música e a paixão. É, paixão sim, já que não acredito em amor à primeira vista. Para mim, o amor vem com o tempo, a convivência e não é uma coisa assim imediata. E eu fugi desse sentimento tão forte. Parece loucura, besteira ou infantilidade mesmo, mas é porque não me sentia à sua altura. Acreditava que ele nunca me viria. Afinal quem iria prestar atenção em uma menina franzina, solitária e que ainda brincava de bonecas? Pode não parecer, mas eu não presto. Sou meio louca e não gosto de pessoas. Elas em sua maioria me fazem mal. Imaginei que ele poderia me fazer mal também. Eu não queria perder essa sensação gostosa de pensar nele. E assim, preferi ficar sozinha, pois eu me entendo e na minha mais plena loucura, consigo ser sã. E é por isso que fiz tanta besteira e quando olho pra trás, não faço muita questão de lembrar disso. Só sei que a vida nos separou. E durante anos eu simplesmente calei tudo isso dentro de mim e morri. Levei a vida tal qual um paciente em coma. Nada me fazia ter esperança ou sonhar. Mas um dia eu encontrei uma foto. Acredita que, só de olhar essa foto sinto o mesmo friozinho na barriga? A voz some. O pensamento congela. As pernas não conseguem sair do lugar e as mãos não sabem onde ficar. E isso me fez tão bem... Entendi que preciso deste sentimento tolo, para seguir adiante... Com isso que carrego dentro de mim, encontro a inspiração, recarrego minhas energias e ganho forças para enfrentar o dia-a-dia... Lembrar de que ele existe, já me basta.
-E onde ele está agora?
-Eu não sei... Ou melhor, sei como chegar até ele, mas não tenho coragem. Hoje, assim como eu, ele tem a vida dele. Os problemas e os sucessos colhidos de sua escolha. Acho que nem se lembra mais de mim. Acho que nunca lembrou. Nem reparou...
-E ele poderia ser eu?
-Poderia... Mas jamais confessaria! Não tenho coragem...
-Então, deixa eu te abraçar?
-Se for para me proteger do frio...
-Sim...!
-Então, abrace-me e proteja-me de tudo. Como sempre fez.
-Vem cá...
E envolvida no calor daquele abraço, murmura em nos ouvidos dele:
-É como diz aquela velha canção: "Quando estou contigo estou em paz".
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Diálogos imaginários que rondam meus pensamentos, enquanto fico aqui na solidão desta varanda, à tua espera.

A gente gosta muito de sonhar e imaginar o amor. Só não podemos nos esquecer de que além de sonhá-lo e imaginá-lo temos que acreditar nele. Acho que encontrá-lo e não deixá-lo passar é nosso maior desafio.
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